Meu parto de Bernardo por Thiago Kaczuroski.

Antes que você diga: Seu uma ova, cara pálida!, eu sei que quem trouxe ele ao mundo foi a mãe. Esta é apenas a minha visão de tudo o que aconteceu esta semana.

Dos sustos desde o “Acho que estou grávida”, nenhum se compara ao “A bolsa estourou”. Assim, sem cerimônia, às 4h da manhã de sábado para domingo, ela levanta da cama e diz: “Kazu, a bolsa estourou”. Não estou com o Guinness aqui à mão, mas acho que sou o recordista mundial de salto-em-altura-cama-solo. No ar, ainda consegui vestir uma calça, camiseta e escovar os dentes, antes que os pés encostassem no chão.

Como boa parte dos nossos conhecimentos científicos vêm dos filmes, bolsa rota = “ai meu deus está nascendo olha a cabecinha ali vai nascer no táxi e vamos batizá-lo de Indianópolis ou Pedro Álvares Cabral por que diabos nós não temos um helicóptero?” Mas não é bem assim…

Quando Cecília veio com essa história de parto humanizado, pensei: ih, já está inventando moda. Por que não fazer o que o plano cobre, com hora marcada etc.? Algumas dúzias de links (reports diários enviados para o meu e-mail) eu já estava meio convencido. Um par de reuniões com pediatra e doula, abracei a ideia e achei que o certo mesmo seria Bernardo vir ao mundo com o máximo de respeito que a gente conseguisse, para ele e para a mãe.

Voltando à madrugada de domingo, alguns telefonemas nos acalmaram: bolsa rota assim, como estava, (só um pouquinho) é só o começo… Voltamos tentar dormir e agendamos um exames para saber como ele estava. No fim de Corinthians x Flamengo (você me deve essa, molequinho, só aceito pagamento in loco, no Itaquerão, lá pelo Brasileirão 2019) saiu o resultado de que estava tudo bem, e o jeito era esperar.

A segunda-feira foi de enorme expectativa: Acupuntura, doula, obstetriz, todas de olho pra ver se ele queria sair. A cada “Ih, ainda não chegou a hora” batia uma angústia… O plano era internar na terça de manhã.

Era.

Às 20h, vimos o que é uma bolsa realmente estourar. Toca chamar o vovô e partir pro hospital.

A madrugada foi a do maior perrengue que passamos no casamento até então. Em uma sala de pré-parto, eu e ela medindo o tempo e segurando a barra de contração em contração. Às 4h e pouco, não conseguimos e chamamos a doula, que chegou em minutos. E mudou completamente o ambiente. O que era dor e medo virou força de vontade (e vontade de ver logo a carinha dele). Não sou muito de acreditar em dom, mas o que essas mulheres (Tatiana, a doula, Ana Paula, a obstetra e Maíra, a obstetriz) fizeram, é algo que não sei explicar. A maior combinação técnica + tato que eu já vi. E como acalmar alguém na iminência de 4kg de uma pessoinha tão frágil e tão esperada passar por ali? E não sei, mas elas conseguiram.

Às 14h uma pequena decepção: as contrações pararam. Totalmente. A perspectiva de mais uma noite de sofrimento era bem real, e a gente ficou meio assim… Mas não era hora de desanimar, eu não podia deixar Cecília pra baixo. A equipe também decidiu que não: duas horas depois, estávamos na sala de parto com um soro com “um cheirinho de ocitocina”. Demorou pouco pras contrações voltarem: exatos três minutos.

O Racional x o Primitivo

Nessa história toda de parto, nosso lado racional e nosso lado mais primitivo ficam nos jogando de um lado pro outro num jogo bem cruel. O pai, geralmente, tenta assumir mais do que sua capacidade racional para deixar a mãe colocar seu lado bicho para fora. Com a gente foi meio assim.

Por mais que eu ajudasse no que dava, um parto é um lance muito mais “delas” que “nosso”. Faz uma massagem aqui, leva água acolá, mas o vulcão está dentro dela, não de mim. Não dá sequer pra imaginar o que está se passando por ali.

Eu estava assim, meio deslocado, até um momento bem específico: ela estava no chuveiro, eu sentei ao lado da banheira em uma bola de Pilates (recém-entrada no Top 10 invenções da humanidade, pelo menos aqui em casa) e ficamos ali conversando. Relembramos histórias engraçadas, listamos nossas situações engraçadas dos últimos 5 anos, conversamos sobre como gostaríamos que ele fosse e tivemos um papo tão gostoso quanto aqueles do começo do namoro — com a diferença de que eram interrompidos a cada 3 minutos com uma contração feroz (adjetivo aqui usado em seus múltiplos sentidos).

Na hora achei que era papo da doula, mas agora, olhando friamente, acho sim que aquele momento ajudou no desenrolar da história toda. E ajudou nossa vida como um todo, isso certamente.

Quando ela achava que ainda faltava muito, veio um convite para sentar numa banquetinha sem fundo. Saquei na hora que havia chegado o que a gente tanto esperava — e temia.

“Oi Ana Elisa, pode vir. Dez minutos”. Parece banal, mas o telefonema que ouvimos de soslaio era a chamada para a pediatra chegar. Aquela que só chega quando a criança nasce.

Para quem — como eu — é totalmente ignorante de como funciona um parto normal, é basicamente assim: Sangue, Suor e Lágrimas. Vez ou outra acompanhados de outras manifestações do corpo que a vida longe da natureza nos condicionou a esconder. Para um marido que acompanha a mulher nessa situação, pouquíssimas coisas relacionadas ao corpo continuarão sendo tabu.

“Está sentindo essa coisa durinha aqui?” — perguntou a obstetra. O sim indicava menos de 5cm ainda dentro do corpo. “É a cabecinha dele”. Foi a maior engolida de choro que dei na vida. Estava perto. Muito perto, mas eu só pensava em segurá-la (fisica e emocionalmente) porque imaginava que essa reta final seria extenuante.

O choro (o meu) veio minutos depois, quando a médica perguntou se eu queria ver algo que elas estavam achando muito interessante. Estiquei a cabeça e vi — ainda que muito pequeno — um pedaço do meu filho, ali, prestes a revelá-lo por inteiro. O quase agora parecia que nunca ia passar.

Informação demais também gera preocupação demais, diz o poeta. Vai faltar oxigênio, vai engolir mecônio (o nome bonito que dão ao cocô que o bebê faz ainda na barriga), vai quebrar algum osso na passagem… todas essas coisas vinham e iam da cabeça naqueles minutos, e não há pensamento positivo que chegue para afastar a preocupação. O jeito era esperar.

Demorou mas veio… Em gritos que ela jamais vai conseguir reproduzir, com o corpo fazendo algo que jamais vai conseguir fazer de novo, nosso filho chegou. Um amontoado roxo que em segundos foi se abrindo em mãozinhas espertas, perninhas vivas que só e um rosto com expressões que tentavam entender o que havia acontecido. Assim como nós.

Aqui as lembranças começam a ficar nebulosas, a ordem das coisas é contada de um jeito por mim, de outro pela mãe, mas algo que ficou gravado na memória foi o momento em que ele abriu os olhos, encontrou o da mãe e ela disse “Oi”. E desde então eles estão se entendendo na relação mais bonita que pode haver no mundo.

Pode ser que agora eu vire um daqueles chatos que vão tentar evangelizar novos pais para o parto humanizado. Juro que tentarei não ser esse cara. Também não vou achar quem opta por uma cesárea menos pai/mãe. Isso é bem ridículo. Mas se você me perguntar se eu recomendo a você passar uma experiência que vai mudar sua vida, que vai te fazer enxergar seu filho de um jeito especial, que vai estreitar os laços do casal, que estamos há 5 dias tentando comparar com alguma experiência possível (ir ao espaço até agora está ganhando), me parece que a resposta é muito clara.

Texto por Thiago Kaczuroski

www.coloreh.com.br

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